Pular para o conteúdo
ZAKHORIUM

A cultura do Talmude em Ashkenaz

Data

1040d.C.

1040 a 1303

De Troyes, Rashi comentou a Bíblia e o Talmude; seus herdeiros, os tosafistas, desenvolveram o estudo dialético, e em 1303 Asher ben Yehiel levou a erudição asquenazita a Toledo.

Literatura rabínicaHistória religiosaArte e cultura48.2975°N 4.0748°E
1000
1100
1200
1300
1400
1500
Sob a Cruz: cada barra é um evento do período; em coral, este.

Narrativa com fontes

Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.

13 afirmações

01Rashi

01

A figura de maior destaque foi Rabi Salomão ben Isaac, Rashi (1040 a 1105), natural de Troyes, no norte da França. Estudou nas academias rabínicas de Mainz e Worms e, aos cerca de 25 anos, voltou a Troyes, onde fundou sua própria escola. Sua erudição e a de seus filhos e discípulos teve impacto enorme sobre o estudo da Bíblia e do Talmude em todo o mundo judaico.

03

Rashi escreveu um comentário à maior parte dos livros da Bíblia e um comentário abrangente a quase todo o Talmude babilônico. Seu comentário bíblico foi o primeiro livro em hebraico a ser impresso, em 1475, e praticamente todas as edições judaicas posteriores da Bíblia hebraica o incluíram.

04

Seu comentário ao Talmude teve impacto em todo o mundo judaico: em meio século após sua morte, as glosas eram conhecidas por rabinos de toda a Europa e, em um século, lidas por eruditos em todo lugar, inclusive hebraístas cristãos que buscavam entender o Talmude. Quando o Talmude babilônico completo foi impresso na Itália, nos anos 1520, as glosas de Rashi saíram nas margens, e todas as edições-padrão desde então as incluem.

05

No comentário bíblico, Rashi combinava a interpretação midráshica com a busca do 'sentido simples' (peshat) do texto, escolhendo em geral a leitura midráshica mais fiel a esse sentido. Elucidava passagens difíceis, traduzia palavras obscuras para o francês de seu tempo e apresentava, em essência, um resumo do entendimento rabínico tradicional.

06

Em Levítico 19:18 ('Não te vingarás nem guardarás rancor'), Rashi explica a diferença com uma ilustração do cotidiano: quem recusa emprestar uma foice e depois, quando o outro lhe pede um machado, responde 'não empresto, como você não me emprestou', age por vingança; já quem empresta, mas diz 'não sou como você, que não me emprestou o machado', guarda rancor.

07

Em seu comentário ao Talmude, Rashi estabeleceu a leitura correta do texto (numa época sem imprensa, circulavam muitos manuscritos com variantes), elucidou palavras e passagens difíceis e explicou termos técnicos. Pensado para uso junto ao texto, foi um passo importante na textualização de uma tradição que em Ashkenaz fora transmitida oralmente por muito mais tempo do que nas comunidades sefarditas da Espanha ou do Norte da África, e permitiu que o Talmude fosse lido como narrativa coerente e se tornasse o centro do ensino e da jurisprudência asquenazitas.

02Os tosafistas

02

Os filhos e discípulos de Rashi continuaram o estudo sistemático do Talmude, tomando seu comentário como ponto de partida. Essas glosas adicionais são as tosafot, e seus autores, ativos na França e na Alemanha nos séculos XII e XIII, são os tosafistas. Como o comentário de Rashi, as tosafot foram incluídas em praticamente todas as edições impressas do Talmude e, já no século XIII, seu método foi apresentado ao judaísmo sefardita por Nahmanides, de Girona.

08

Segundo um historiador recente, os tosafistas viam o Talmude como um corpus unificado e intrinsecamente coerente, identificavam paralelos textuais e criaram um sistema abrangente de referências cruzadas, partindo da ideia de que sua linguagem era fixa e autorizada e de que era internamente consistente. Desenvolveram um método dialético sofisticado e se valeram de escritos gaônicos, estudos de gramáticos hebreus da Espanha e do dicionário talmúdico Arukh, de Natan ben Yehiel de Roma (1101).

09

Os tosafistas tinham consciência da tensão entre os preceitos do Talmude e a prática costumeira dos judeus asquenazitas e, tomando ambos como autoridade, buscavam harmonizar entendimentos aparentemente incompatíveis da lei. Rashi e os tosafistas contribuíram para uma cultura asquenazita singular, distinta da sefardita, mas sua abordagem do Talmude moldou, até hoje, o contato dos judeus com o texto em outros lugares.

10

Simhá ben Samuel de Vitry, aluno de Rashi, compôs o Mahzor Vitry, coletânea de liturgia e lei com as orações do ano inteiro e normas sobre o Shabat, as festas, o casamento e o abate ritual: obra de referência única sobre as tradições legais e costumes dos judeus do norte da França do fim do século X e início do XI. Outros membros da escola tosafista reuniram sistematicamente os costumes (minhag) dos asquenazitas, sociedade especialmente sensível ao costume local e familiar, a ponto de invocar o dito 'o costume anula a lei' (minhag mevatel Halakhah), que aparece no Talmude de Jerusalém.

03De Ashkenaz a Sefarad

Em 1303, o erudito tosafista Asher ben Yehiel (o 'Rosh') deixou sua Alemanha natal e mudou-se para Toledo, capital do reino cristão de Castela. Ali seu filho Jacó ben Asher (m. 1340) escreveu um novo código abrangente de lei judaica, o Arba'ah Turim, fruto do encontro de culturas asquenazita e sefardita: seguia Maimônides e as decisões do pai, levava a erudição dos rabinos asquenazitas à Espanha e adotava uma organização temática nova, em quatro partes, que viria a ser o padrão dos códigos posteriores, o mais influente sendo o de José Caro (anotado por Moisés Isserles), no século XVI.

Contexto

Vários sábios exerceram grande influência sobre os judeus de Ashkenaz em seu tempo e depois: Gershom ben Judá (Rabenu Gershom, m. 1040), Salomão ben Isaac (Rashi, m. 1105), Jacó ben Meir Tam (Rabenu Tam, m. 1171) e Meir ben Barukh de Rothenburg (m. 1293). O Talmude babilônico, produzido pelas academias da Babilônia e difundido pela Diáspora na era do Império Islâmico, tornou-se a obra de referência por excelência da cultura rabínica (embora nunca a única) pelas mãos dos sábios da Europa setentrional medieval, a começar por Rashi (1040 a 1105). Nas palavras da historiadora Talya Fishman, os judeus passaram a ser o 'povo do Talmude'.

§ 01Geografia

Onde aconteceu

Coordenadas de gazetteers (Pleiades para lugares antigos; Natural Earth e Wikidata para os modernos) sobre geografia física moderna (Natural Earth). Litorais e o Mar Morto mudaram desde a Antiguidade.
▮ carregando geografia

§ 04Rede

Conexões

§ 05Bibliografia

Para continuar

  • Talya Fishman, Becoming the People of the Talmud (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2011).

    A cultura rabínica medieval · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 212

  • David Malkiel, Reconstructing Ashkenaz: The Human Face of Franco-German Jewry, 1000–1250 (Stanford, CA: Stanford University Press, 2009).

    O rosto humano dos judeus franco-alemães, de 1000 a 1250 · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 212

§ 06Aparato

Fontes desta página

  1. 01Efron, Lehmann e Weitzman, p. 192; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 192inspecionar
  2. 02Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193inspecionar
  3. 03Efron, Lehmann e Weitzman, p. 192; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 192inspecionar
  4. 04Efron, Lehmann e Weitzman, p. 192; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 192inspecionar
  5. 05Efron, Lehmann e Weitzman, p. 192; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 192inspecionar
  6. 06Efron, Lehmann e Weitzman, p. 192; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 192inspecionar
  7. 07Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193inspecionar
  8. 08Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193inspecionar
  9. 09Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193inspecionar
  10. 10Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193inspecionar
  11. 11Efron, Lehmann e Weitzman, p. 193; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 194inspecionar
  12. 12Efron, Lehmann e Weitzman, p. 191; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 191inspecionar
  13. 13Efron, Lehmann e Weitzman, p. 183; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 183inspecionar
  • Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
  • Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
  • Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
  • Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
  • Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.