Uma história de fundação, entre lenda e memória
Data
66d.C.
durante a Revolta Judaica (66 a 70 d.C.)data aproximada
Segundo uma versão da tradição rabínica, um sábio escapou da Jerusalém sitiada num caixão e obteve de Vespasiano permissão para fundar em Yavne o primeiro centro rabínico; os historiadores tratam o relato com cautela.
Narrativa com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
10 afirmações
01A história
Uma história famosa conta como Yohanan ben Zakai foi de Jerusalém a Yavne. Durante a Revolta Judaica, os rebeldes vigiavam a cidade para que ninguém desertasse para os romanos, e Yohanan só saiu escondido num caixão carregado por seus discípulos. Levado a Vespasiano, anunciou que o general chegaria ao poder, e logo um mensageiro vindo de Roma trouxe a notícia de que Vespasiano era imperador. Agradecido, o general deixou o sábio fazer um pedido; numa das versões, Yohanan pede para se instalar em Yavne com os discípulos, que assim teria se tornado a primeira sede de estudo e de autoridade judicial rabínica depois da destruição do Templo. Yavne, chamada Jâmnia nas fontes gregas da época romana, era uma cidade litorânea; a atual Tel Aviv fica ao norte dela. Judeus religiosos veneram ali um túmulo atribuído a Gamliel II, sucessor de Yohanan; o túmulo, na verdade, só surgiu muito depois, no período islâmico, e nenhuma escavação revelou atividade rabínica tão antiga em Yavne ou em outro sítio.
02Lenda ou memória?
A história é muito posterior a Yohanan e sobrevive em várias versões divergentes. A profecia sobre Vespasiano se parece suspeitamente com uma história que Josefo conta sobre si mesmo, e fugas em caixões aparecem em Josefo e em autores clássicos. Não é possível saber que detalhes pertenciam à versão original, nem se algum reflete o que de fato aconteceu. A literatura rabínica é vasta (o Talmude é chamado de 'mar'), técnica e opaca, mas é uma fonte histórica traiçoeira: suas histórias aparecem em textos posteriores, misturam lenda e memória e muitas vezes dizem mais sobre os editores anônimos do que sobre as pessoas descritas.
03Uma nova expiação
Tradição ou narrativa
Avot de Rabi Natan conta que Josué, o principal discípulo de Yohanan, chorou ao ver o Templo arrasado, pois ali Israel expiava seus pecados. Yohanan o consolou: havia uma expiação tão eficaz quanto aquela, os atos de bondade (gemilut hasadim). Como outras histórias sobre ele, esta tem mais de lenda que de história; mesmo assim, é possível que o Yohanan real tenha de fato ajustado a tradição à perda do Templo.
Tradição ou narrativa
Antes de 70, o shofar só podia ser tocado em Rosh Hashaná no Templo; Yohanan teria decretado que, depois da destruição, poderia ser tocado em qualquer lugar. Esses decretos atribuídos a ele permitiram continuar práticas que dependiam do Templo.
Tradição ou narrativa
A fuga de Jerusalém para Yavne faz de Yohanan ben Zakai o modelo de um judaísmo que troca a revolta e a morte heroica pela aceitação do domínio romano e pela dedicação ao estudo.
04Um Sinédrio em Yavne?
Segundo a literatura rabínica, Yohanan levou o Sinédrio para Yavne, e esse tribunal teria decidido as questões de toda a comunidade judaica. Há historiadores, porém, que duvidam que o Sinédrio tenha sequer existido; e, se havia tribunais judaicos na Palestina depois da revolta, nada mostra de fato que Yohanan os comandasse. Em vida, ele pode ter tido pouca influência.
Contexto
Pirkei Avot, os 'Capítulos dos Pais', é uma antologia de ditos de sábios rabínicos incluída na Mishná. Seu primeiro capítulo traça uma genealogia intelectual que leva a Torá de Moisés a Josué, aos profetas e anciãos, e deles a Yohanan ben Zakai e seus discípulos: os rabinos se viam como sucessores de Moisés, numa tradição que remontava ao Sinai. O recorte do capítulo vai da destruição do Templo, em 70 d.C., até a chegada da era islâmica.
§ 01Geografia
Onde aconteceu
§ 03Historiografia
O que os estudiosos discutem
Debate acadêmico · 01
A história da fuga de Yohanan ben Zakai para Yavne preserva acontecimentos reais?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Memória transmitida oralmente
Possibilidade que os autores não descartam
A história poderia conservar a lembrança de fatos reais, passada oralmente dos discípulos de Yohanan a seus sucessores até ser escrita.
- B
Lenda tardia
Efron, Lehmann e Weitzman, com base na crítica das fontes
Muitos detalhes parecem lendários: a profecia sobre Vespasiano lembra uma história que Josefo conta de si mesmo e provavelmente deriva dela; fugas em caixões também aparecem em Josefo e em autores clássicos; e as várias versões mostram que o relato foi muito reescrito.
Debate acadêmico · 02
Yohanan ben Zakai levou o Sinédrio para Yavne?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Sim, segundo a tradição rabínica
A literatura rabínica
Yohanan teria transferido o Sinédrio, tribunal religioso central que decidia pela comunidade judaica, para Yavne.
- B
Existência questionada
Alguns historiadores
Questionam a própria existência do Sinédrio.
§ 04Rede
Conexões
§ 05Bibliografia
Para continuar
Shaye Cohen, From the Maccabees to the Mishnah (Philadelphia: Westminster John Knox Press, 1987).
Sectarismo judaico (base da exposição do capítulo, segundo os autores) · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 87
Barry Holtz, ed., Back to the Sources: Reading the Classic Jewish Texts (New York: Simon and Schuster, 1984), 129-211.
Como ler textos rabínicos · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 153
§ 06Aparato
Fontes desta página
- 01Efron, Lehmann e Weitzman, p. 131; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 131inspecionar
- 02Efron, Lehmann e Weitzman, p. 131; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 131inspecionar
- 03Efron, Lehmann e Weitzman, p. 131; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 134; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 131inspecionar
- 04Efron, Lehmann e Weitzman, p. 131inspecionar
- 05Efron, Lehmann e Weitzman, p. 133inspecionar
- 06Efron, Lehmann e Weitzman, p. 133inspecionar
- 07Efron, Lehmann e Weitzman, p. 134inspecionar
- 08Efron, Lehmann e Weitzman, p. 135; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 135inspecionar
- 09Efron, Lehmann e Weitzman, p. 120; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 120inspecionar
- 10Efron, Lehmann e Weitzman, p. 132inspecionar
- Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
- Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
- Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
- Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
- Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.