O capítulo parte de uma pergunta: em que momento os israelitas da Bíblia, o povo do Reino de Judá, se tornaram aquilo que hoje chamamos de judeus, e o que justifica trocar o nome pelo qual os designamos.
Sala 02 · 587 a 332 a.C.
Tornando-se o Povo do Livro
Do Exílio Babilônico à Pérsia
587 a 332 a.C.
O recorte vai da destruição babilônica de Jerusalém, em 587 ou 586 a.C. (cronologia, p. 519), ao fim do domínio persa, em 332 a.C., quando termina o império aquemênida do mapa 2.1 (p. 35). O capítulo também percorre a formação da Bíblia e sua recepção até hoje, bem além dessas datas.
Panorama com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
Afirmações deste período
Embora estudiosos questionem se a conquista babilônica foi tão desastrosa quanto a Bíblia sugere, a maioria a vê como um divisor de águas. Com o fim da dinastia davídica, Judá perdeu a independência, e o destino de seus habitantes passou a ser moldado por governos estrangeiros.
O domínio babilônico foi relativamente breve: terminou em 539 a.C., quando o Império Neobabilônico foi derrotado por Ciro II, fundador da dinastia aquemênida, que dominaria o Oriente Próximo pelos dois séculos seguintes. A cronologia do livro registra o édito de Ciro permitindo que os exilados voltassem a Yehud e reconstruíssem o Templo.
A era persa é também a época em que os judaítas parecem recorrer pela primeira vez aos textos que viriam a ser a Bíblia para manter viva sua cultura ancestral. Parece um gesto conservador, mas é uma nova fase e talvez o desenvolvimento mais importante do período para entender como a cultura judaíta gerou a judaica.
O que saiu do período de conquista babilônica e domínio persa não foi a Bíblia, mas um conjunto de textos, rolos e não livros como os de hoje. Esse conjunto é o cânone bíblico, reunião de escritos a que os judeus atribuem autoridade religiosa especial. Não se sabe por que certos livros entraram e outros não.
Interpretação contestada
Pode-se argumentar que a cultura judaica antecede a Bíblia (Elefantina mostra uma comunidade judaíta sem sinal de Bíblia) ou que a Bíblia antecede os judeus (ela começou a se formar na antiga Judá antes do Exílio e da missão de Esdras e Neemias). Os autores não resolvem o dilema do ovo e da galinha: afirmam só que judeus e Bíblia se desenvolveram inseparavelmente.
§ 01Índice
36 eventos
§ 02Pessoas
Quem aparece neste capítulo
- JosiasRei de Judá
- Ciro II, o GrandeFundador do Império Persa aquemênida
- Dario IRei persa que consolidou o império
- EsdrasEscriba, sacerdote e líder da comunidade judaíta
- NeemiasCopeiro do rei persa enviado a Yehud
- Hananias (carta de Elefantina)Autor de uma carta sobre a Páscoa à comunidade de Elefantina
- BagavahyaGovernador persa a quem os judaítas de Elefantina recorreram
- HecateuViajante grego, contemporâneo de Alexandre
- HamurabiRei da Babilônia, autor de um código de leis
- Franz RosenzweigTeólogo judeu alemão
- Emil FackenheimFilósofo judeu, refugiado dos nazistas
§ 03Historiografia
Debates do capítulo
Debate acadêmico · 01
A comunidade de Elefantina era judaica?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Sim, eram judeus
Muitos estudiosos
O termo com que se autodesignavam, 'yehudiyin', costuma ser traduzido como 'judeus', e há bons motivos: adoravam Javé (Yaho), tinham nomes iaveístas e guardavam dias santos como o sábado e a Páscoa.
- B
Outro ramo da cultura judaíta
Posição que os autores consideram menos anacrônica
Chamá-los de judeus faz sentido se 'judeu' significar alguém de Judá ou descendente de judaítas, mas seria enganoso imaginar uma comunidade como a dos judeus de fontes posteriores: talvez seja menos anacrônico vê-la como outro ramo, separado, da cultura judaíta anterior.
Debate acadêmico · 02
Quando começa a história propriamente judaica?
3 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Em 587 ou 586 a.C.
Muitos estudiosos
A destruição de Jerusalém e do Templo por Nabucodonosor teria desencadeado a criatividade religiosa e literária que deu origem ao judaísmo.
- B
Uma transição gradual, sem data
Os autores do livro
Como a definição de 'judaico' é imprecisa, os autores se recusam a apontar uma data e preferem examinar acontecimentos que, vistos em retrospecto, foram decisivos; para eles, a ascensão da Bíblia e de sua interpretação marca o começo da história judaica, distinta da israelita.
- C
Povo e Bíblia nascem juntos
Conclusão dos autores no fim do capítulo
Pode-se dizer que a cultura judaica antecede a Bíblia (Elefantina) ou que a Bíblia antecede os judeus; os autores não decidem e destacam que ambos se desenvolveram de modo inseparável.
Debate acadêmico · 03
O retrato bíblico de Ciro é propaganda persa?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Ciro como instrumento de Deus
A própria Bíblia (Dêutero-Isaías)
Deus teria dado a Ciro seu império para que ele devolvesse os judaítas à terra e reconstruísse o Templo; os persas aparecem como patronos benignos.
- B
Propaganda pró-persa
Alguns historiadores
O retrato é tão elogioso que o Dêutero-Isaías poderia ser propaganda pró-persa, hipótese plausível diante do Cilindro de Ciro, em que um escriba babilônio apresenta Ciro como restaurador piedoso das tradições locais, com a mesma estratégia retórica.
Debate acadêmico · 04
Qual foi o papel de Esdras?
3 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Um segundo Moisés
A tradição judaica posterior
Esdras teria 'reaberto' a revelação das leis de Moisés na forma que os judeus posteriores conheciam e até transcrito o texto bíblico para a escrita aramaica.
- B
Funcionário persa que aplica a lei de Deus
O livro de Esdras
O rei persa Artaxerxes o nomeia para conduzir exilados à Judeia e regular a vida em Judá e Jerusalém 'segundo a lei do seu Deus', provavelmente os Cinco Livros de Moisés.
- C
Introdutor dos Cinco Livros como lei
Alguns estudiosos
Os Cinco Livros teriam sido introduzidos em sua administração, não compostos então, mas compilados, editados e promulgados como lei obrigatória.
Debate acadêmico · 05
O que a Bíblia diz sobre o casamento com estrangeiros?
3 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Oposição forte (Neemias)
Neemias e as leis contra casamentos com cananeus
Neemias amaldiçoa e espanca judaítas casados com mulheres de Asdode, Amon e Moabe; a proibição bíblica parece ter nascido do temor de que tais casamentos levem ao culto de deuses cananeus, mas a preocupação de Neemias é que os filhos percam a língua de Judá.
- B
Sem proibição geral
Outros textos da Bíblia hebraica
A proibição visa os não israelitas que vivem em Canaã; não há veto geral a casar com estrangeiros, e Isaac, Jacó, José e Moisés se casam com arameias, egípcias e midianitas.
- C
Casamentos mistos como bênção
Rute e Ester
Em Rute, Davi descende do casamento de Boaz, israelita, com Rute, moabita; o autor de Ester tampouco se incomoda com o casamento de Ester com Assuero.
Debate acadêmico · 06
A Pérsia moldou a autoridade da Torá?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Incentivo do governo persa
Hipótese que os autores consideram plausível
A Torá teria se tornado carta religiosa e social do povo de Judá no período persa, talvez com incentivo do governo, que pode ter recrutado funcionários como Esdras ou o Hananias da carta para ensiná-la e impô-la como código local.
- B
Herança israelita, não invenção persa
Ressalva dos próprios autores
Os autores não sugerem que o domínio persa criou os Cinco Livros ou que estes foram canonizados para servir aos interesses persas: eram parte do legado cultural herdado de Israel.
Debate acadêmico · 07
O que foi o rolo achado no reinado de Josias?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Uma Torá de Moisés esquecida
O relato de 2 Reis 22 e 23
Durante reparos no Templo, achou-se uma Torá de Moisés havia muito perdida, que fixava os mandamentos do pacto; Josias vê que eles foram violados e lança uma grande reforma.
- B
Deuteronômio e uma 'redescoberta' encenada
Estudiosos modernos
O rolo seria Deuteronômio e sua redescoberta teria sido um ardil do rei para fazer passar um livro de leis recém-composto por um texto antigo de Moisés.
Debate acadêmico · 09
Por que 1 Samuel 11 tem uma passagem a mais nos Manuscritos do Mar Morto?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Inserção posterior
Possibilidade admitida pelos autores
O material adicional poderia ter sido inserido no texto de modo secundário.
- B
Omissão acidental
Explicação que os autores julgam mais provável
Um escriba teria apagado a passagem por acidente ao copiar o texto que virou a versão lida pelos judeus hoje.
Debate acadêmico · 10
Por que os judeus fixaram uma só versão do texto bíblico?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Outras versões se perderam com o Templo
Hipótese dos autores
O Templo pode ter servido de depósito de manuscritos bíblicos em formas diferentes, e sua destruição em 70 d.C. pode ter causado sua perda, sobrando só uma forma do texto hebraico.
- B
Reduzir conflitos interpretativos
Outra hipótese dos autores
Em tempos de divisões sectárias e de uma comunidade cristã nascente com sua própria abordagem da Bíblia, os líderes judaicos talvez quisessem minimizar as diferenças entre versões bíblicas.
Debate acadêmico · 11
Como entender as duas versões do mandamento do sábado?
3 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Doublet de fontes diferentes
Estudiosos modernos
As duas versões dos Dez Mandamentos seriam mais um doublet da Torá, que combina material de fontes diferentes.
- B
Duas mensagens ditas ao mesmo tempo
Mekhilta de Rabi Ismael (rabinos)
'Lembrar' e 'guardar' teriam sido ditos por Deus numa só palavra, façanha de comunicação impossível a mortais, o que mostra que a Torá excede a fala humana comum.
- C
Um mandamento à parte: proteger o sábado
Os membros da comunidade dos Manuscritos do Mar Morto
'Guardar' em Deuteronômio 5 seria outro mandamento, revelado ao mesmo tempo: parar de trabalhar antes do sábado para não correr o risco de perder seu início.
Debate acadêmico · 12
Como os rabinos entendiam a lei bíblica e sua pena de morte?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Lei vinculante, elaborada pela Torá Oral
Os rabinos
A revelação do Sinai incluiu uma Torá Oral, não registrada nos Cinco Livros e transmitida de Moisés a Josué, aos profetas e aos rabinos, que detalha a lei bíblica, introduz ressalvas e abre exceções.
- B
Pena de morte esvaziada na prática
Os rabinos, segundo os autores
Por exigir prova altíssima de culpa (aviso específico ao acusado) ou por limitar a pena aos dias do deserto, os rabinos a tornaram inaplicável; hoje, tribunais religiosos não teriam autoridade para impô-la.
Debate acadêmico · 13
Como judeus modernos se relacionam com a revelação do Sinai?
4 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Revelação sem conteúdo verbal (Rosenzweig)
Franz Rosenzweig
A Bíblia registra algo genuíno, mas importa o que a experiência provoca, não se os fatos ocorreram: todas as palavras da Torá são humanas, e ler a Torá é um encontro com Deus.
- B
O Holocausto como segunda revelação (Fackenheim)
Emil Fackenheim
O Holocausto ameaçou destruir a fé em Deus, mas também impôs a ordem de permanecer fiel à aliança do Sinai, negando a Hitler uma vitória póstuma.
- C
Mulheres como parceiras plenas da revelação (Plaskow)
Judith Plaskow
Recorrendo ao midrash como precedente, a teóloga reimagina o Sinai afastando a descrição masculina de Deus e incluindo as mulheres plenamente.
- D
Os esforços são irrelevantes
Judeus religiosos que não reconhecem a pesquisa e judeus seculares
Alguns não reconhecem os desafios da pesquisa moderna; outros não veem sentido em salvar o que tomam por mito.
Debate acadêmico · 14
O que aconteceu com a Arca da Aliança?
3 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Escondida sob o Templo ou numa caverna
Algumas fontes
A arca teria sido ocultada sob o local do Templo ou numa caverna.
- B
Levada pelos romanos
Outras fontes
Os romanos a teriam levado depois da destruição do Segundo Templo.
- C
Levada para a Etiópia
A tradição etíope
Teria sido levada às escondidas para a Etiópia, onde estaria até hoje.