Os autores adotam dois pontos de partida: a história israelita antes do Exílio Babilônico de 586 a.C. (tema deste capítulo) e o surgimento da própria Bíblia hebraica (tema do capítulo 2). Defendem que a formação da condição judaica e a formação da Bíblia estão inseparavelmente ligadas.
Sala 01 · 1207 a 586 a.C.
O antigo Israel e outros ancestrais
De Canaã ao Exílio Babilônico
1207 a 586 a.C.
O início usa 1207 a.C., data da primeira referência extrabíblica conhecida a Israel. O fim usa 587 ou 586 a.C., destruição do Primeiro Templo e ponto de transição do capítulo para a cultura judaica. Tradições patriarcais e do Êxodo recuam além desse intervalo, mas não podem ser datadas com segurança.
Panorama com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
01Por onde começar
Nos últimos séculos os estudiosos passaram a questionar esse relato tradicional e propuseram várias reconstruções alternativas, algumas em franco desacordo com a Bíblia. Os autores admitem que ninguém chegou a um consenso sobre como os judeus surgiram.
Interpretação contestada
Graças à pesquisa histórica e arqueológica, dizem os autores, já não se pode ter certeza de que figuras como Abraão, Moisés e Davi tenham existido. Duvidar delas, porém, não resolve a questão de como os judeus se originaram.
A palavra 'judeu' vem do nome Judá (Yehuda), que na própria Bíblia designa uma tribo israelita, um território no sul de Canaã e o reino de Davi e seus descendentes. Depois da era bíblica, os termos para 'judeu' passaram a indicar um modo de vida ou crenças, e hoje podem significar religião, identidade cultural ou étnica, ou identidade nacional.
A erudição moderna duvida do valor da Bíblia hebraica como documento histórico: questiona se Abraão e Moisés existiram e se eventos centrais, como o Êxodo e a revelação no Sinai, ocorreram. O ceticismo afastou alguns judeus e cristãos que tomam a Bíblia por relato exato, mas, dizem os autores, suas razões não podem ser descartadas de saída.
A cultura judaica não surgiu de repente: evoluiu de uma cultura israelita anterior, da qual herdou crenças, práticas, línguas, textos e padrões de organização social. Perguntas como a origem da circuncisão, do sábado e das regras alimentares só se respondem olhando para essa cultura pré-judaica, e a literatura bíblica é a fonte mais rica sobre ela.
Mesmo que a Bíblia fosse inútil como fonte histórica, saber o que ela diz é essencial, porque há pelo menos dois mil anos os judeus recorrem a ela para saber quem são. Muitos traçam sua linhagem até Abraão e Jacó, relembram o Êxodo na Páscoa como se estivessem no Egito e esperam um messias da linhagem de Davi; até judeus seculares a usam como fonte de poesia e arte.
Como o testemunho da Bíblia sozinho é discutível, o capítulo apresenta a história israelita tal como reconstruída por especialistas bíblicos, que a situam no contexto de outras fontes do Antigo Oriente Próximo e da escavação arqueológica.
02Calendário e método
As siglas AEC e EC (BCE e CE), usadas neste livro, dependem de uma contagem cristã do tempo: o sistema de datar a partir do nascimento de Jesus foi criado no século VI por um monge, Dionísio Exíguo, e muitos estudiosos acham que Jesus nasceu entre 6 e 4 a.C. As siglas 'antes da Era Comum' e 'Era Comum' foram adotadas para indicar datas comuns a toda a humanidade.
A contagem 'antes de Cristo' foi desenvolvida nos séculos XVII e XVIII, retrocedendo a partir do ano 1 a.C.; não existe ano zero.
Os judeus usam há muito seu próprio calendário, que conta a partir da criação do mundo segundo a tradição. Suas origens são obscuras, mas a criação como ponto de partida parece ter sido adotada pelas comunidades no século X ou XI, talvez como reação à influência do calendário cristão; em 2018, era o ano 5778.
Aplicar AEC e EC à história judaica tem valor, porque situa os judeus na história mais ampla da humanidade, mas lembra que o modo de pensar o passado foi moldado pelo contexto cristão europeu em que a disciplina histórica surgiu.
Os estudiosos modernos não querem minar crenças religiosas: seguem um modo de conhecer baseado em evidências empíricas, questionamento livre e explicação racional, e não na tradição. Como juízes num julgamento, querem ouvir várias testemunhas e interrogá-las antes de concluir.
Para a erudição moderna, o que a Bíblia diz sobre o passado fica mais crível quando fontes independentes o confirmam: textos escritos fora da Bíblia (inscrições de Israel e textos de outras culturas do Oriente Próximo) e a arqueologia. A confirmação às vezes ocorre, mas com mais frequência as evidências desafiam o que se acreditava ou tratam de aspectos que a Bíblia não registra.
Os dois tipos de evidência se complementam: os textos revelam o que as pessoas pensavam e como se expressavam; a arqueologia (cerâmica, ruínas, ferramentas, armas, joias) mostra o que faziam, o que comiam, como trabalhavam, lutavam e enterravam seus mortos.
Interpretação contestada
A erudição bíblica hoje vive um debate vivo e sem solução sobre o que realmente ocorreu na história israelita: alguns acham que a Bíblia ensina muito sobre o antigo Israel; outros propõem relatos alternativos que divergem dela ou a contradizem. Os autores lembram que essas reconstruções são sempre hipotéticas.
03Origens e evidência
A torre de Babel lembra um grande templo-torre erguido na Babilônia, bem depois da época em que Abraão teria vivido; isso sugere que o relato foi composto relativamente tarde.
Interpretação contestada
Estudiosos tentaram dar plausibilidade histórica aos patriarcas ligando-os aos Amurru, povo conhecido por fontes mesopotâmicas como 'ocidental', talvez nômade na origem e proeminente entre 2000 e 1600 a.C. Esse seria, aproximadamente, o período de Abraão se se contar de trás para a frente a partir de um Davi por volta de 1000 a.C. com a cronologia bíblica. O esforço ficou conhecido como a hipótese amorita.
Um relevo do templo egípcio de Karnak, do século XIV a.C., mostra os Shasu depois de derrotados pelos egípcios; alguns estudiosos os identificam como os primeiros israelitas ou como o povo de que os israelitas descenderam. O livro nota também que, se for uma imagem dos primeiros israelitas, eles seriam indistinguíveis dos outros cananeus.
A própria Bíblia é incoerente: segundo Juízes 1:8, a tribo de Judá atacou Jerusalém, matou seus habitantes e a incendiou; alguns versículos adiante (1:21), a tribo de Benjamim não a conquistou e os jebuseus continuam a viver ali com eles. Duas tradições sobre a tomada de Jerusalém, com tribos e resultados diferentes, sem como saber qual crer.
Interpretação contestada
Tomadas em conjunto, as evidências levantam a possibilidade de que os israelitas tenham se originado de modo completamente diferente do que a Bíblia afirma. Não se deve ver isso como fato certo: depende de hipóteses discutíveis e o consenso, se existe, pode mudar. O certo é que não dá para presumir que se conheça a origem dos antigos israelitas; a Bíblia conta só parte da história.
Duvidar da Bíblia não a torna inútil como fonte: uma inscrição egípcia comprova um povo chamado Israel em Canaã no século XIII a.C.; a existência de povos citados (egípcios, filisteus, assírios, moabitas, edomitas) é confirmável; e a descrição de terreno, clima e economia combina com a Canaã da Idade do Ferro (de cerca de 1200 ao século VI a.C.).
É difícil datar os eventos da Bíblia, pois sua cronologia é inverossímil (Matusalém teria vivido 969 anos) ou vaga demais. Uma cronologia parcial pode ser montada cruzando a bíblica com fontes externas. Ficam de fora a viagem de Abraão, o Êxodo e a conquista de Canaã, não por se poder provar que não ocorreram, mas por não poderem ser situados com segurança na história conhecida.
Um povo chamado 'Israel' já estava em Canaã no século XIII a.C. Sabemos disso porque ele é mencionado num hino de vitória do reinado do rei egípcio Merneptá (c. 1213 a 1203 a.C.), gravado numa estela que pode ser datada com precisão. A cronologia do livro registra que, em 1207 a.C., o povo de Israel já aparecia vivendo em Canaã.
Não há indício claro de que os habitantes desses povoados fossem imigrantes vindos do Sinai ou do Egito: casas e cerâmica são difíceis de distinguir das da população local. A tese de que seriam ex-nômades também não se sustenta. Sem a história bíblica do Êxodo e da conquista, não haveria razão para supor que não fossem cananeus pressionados por razões econômicas ou sociais a ocupar uma região áspera fora do controle das cidades-Estado.
Por volta de 925 a.C., o rei Sisaque do Egito invadiu Canaã. A Bíblia (1 Reis 14:26) o situa no quinto ano de Roboão, e sua invasão é o primeiro evento específico da Bíblia confirmado por uma fonte externa, um texto egípcio que descreve a campanha. Se a cronologia bíblica estiver certa, Salomão morreu cinco anos antes, em 930 a.C., o que coloca o surgimento da monarquia em Israel por volta de 1000 a.C.
Interpretação contestada
Dois selos com o nome Baruque, provavelmente o escriba que redigiu as profecias de Jeremias, foram publicados, mas ao menos um deles é hoje suspeito de ser falsificação.
Alguns estudiosos acham que o primeiro Estado israelita surgiu como reação ao domínio filisteu. Em cidades como Bete-Semes, povoado de fronteira entre territórios israelita e filisteu escavado desde os anos 1990, achou-se evidência de fortificações elaboradas que exigiriam algum poder centralizado, presumivelmente um Estado israelita defendendo suas fronteiras.
As ruínas impressionantes visíveis hoje no Monte do Templo, em Jerusalém, são do Segundo Templo, e não há vestígio de uma estrutura anterior no local.
Também na cronologia: Merneptá reina no Egito (1213 a 1203 a.C.); o povo de Israel aparece vivendo em Canaã em 1207 a.C.; a morte do rei egípcio Ramsés III e o fim do controle egípcio sobre Canaã (1156 ou 1155 a.C.); o suposto período dos Juízes (1200 a 1000 a.C.).
04Parentesco e sociedade
Tradição ou narrativa
Meninos eram preferidos às meninas, e o primogênito aos mais novos, mas, estranhamente, na Bíblia os irmãos mais jovens costumam levar vantagem: Isaac suplanta o meio-irmão Ismael, Jacó leva a melhor sobre Esaú, José eclipsa Rúben, e Davi e Salomão se tornam reis embora tenham irmãos mais velhos com mais direito.
Historiadores modernos chamam Israel de nação, mas isso não capta como os israelitas viam sua identidade: textos como Gênesis indicam que a família era essencial. Cada israelita rastreava sua família por ao menos cinco gerações; quem não se encaixava era considerado forasteiro, embora povos próximos, como os edomitas (descendentes de Esaú), fossem tidos como mais próximos de Israel na árvore genealógica do que os egípcios.
Tradição ou narrativa
A estrutura baseada em parentesco deixava à margem viúvas, órfãos e estrangeiros residentes, em posição muito vulnerável. Na Bíblia, Deus é 'pai dos órfãos e protetor das viúvas' (Salmo 68), e havia forte código de hospitalidade; mesmo assim, alguns israelitas eram desconfiados e às vezes abusivos com estranhos, problema que a Bíblia enfrenta repetidamente ('não oprimirás o estrangeiro', Êxodo 22:21).
Tradição ou narrativa
O bem mais precioso de uma família israelita era a terra, fonte de seu sustento. Quando o rei Acabe tentou comprar o vinhedo de Nabote, este recusou, dizendo que Deus o proibia de ceder a herança dos antepassados (1 Reis 21:3). Por isso um dos piores castigos que os autores bíblicos imaginam é o exílio, a separação de Israel de sua terra.
O pai ou avô era a autoridade máxima da casa e a passava a herdeiros homens; a mulher ficava sob controle masculino a vida toda, primeiro do pai e, no casamento (negociado entre o noivo e o pai dela), do marido. A casa era também um centro econômico (armazenamento, criação de animais, cerâmica e tecidos), em que as mulheres provavelmente tinham papel importante, mas seu papel principal era ter e criar filhos.
A escravidão era instituição aceita no Oriente Próximo, e Israel não fugia à regra. A memória central da fuga da escravidão inspirou abolicionistas modernos, mas a história do Êxodo não implica rejeitar a escravidão como instituição: a Bíblia sugere que os egípcios erraram porque os israelitas não mereciam esse tratamento. A memória do Êxodo gera simpatia por israelitas escravizados por outros israelitas, e a Bíblia limita essa servidão, mas a escravidão estava entranhada na sociedade e nunca ocorreu a quem escreveu a Bíblia aboli-la.
Os laços familiares foram postos sob grande tensão no Exílio Babilônico e, mais tarde, no domínio grego e romano, quando surgiram alternativas à vida familiar, como comunidades voluntárias (a cristã primitiva e a rabínica), que afastaram alguns homens das responsabilidades da família. Ainda assim, vestígios da estrutura familiar antiga persistiram, como a identificação tribal: os sobreviventes do Exílio ainda se diziam membros de tribos (a maioria de Judá, alguns de Levi e Benjamim), e isso continuou no século I.
Hoje 'judeu' (de Judá) não implica identidade tribal em sentido prático, mas ela persiste: alguns judeus se identificam como descendentes dos levitas, a família encarregada na Bíblia de funções do culto, identidade passada de pai para filho e muitas vezes refletida em sobrenomes como Levi ou Levine.
05Vizinhos do antigo Israel
A Mesopotâmia, a planície entre o Tigre e o Eufrates, é onde surgiu a primeira civilização; a mais antiga conhecida ali foi a suméria. A irrigação avançada gerou assentamentos maiores, e cidades como Uruk viraram cidades-Estado com governantes dinásticos. Um deles, Sargão, fundou o primeiro império da história e, segundo a lenda, como Moisés, foi posto num cesto no rio, criado por um jardineiro real ou tirador de água, e chegou a rei.
O Nilo, ao contrário do Tigre e do Eufrates, inundava de forma regular e previsível, e o Egito teve menos migrações e invasões, de modo que alcançou mais estabilidade política. Sua história se divide em Antigo, Médio e Novo Reinos, com três 'períodos intermediários'. Israel surgiu no fim da era dominada pelo Novo Reino, no auge sob Ramsés II (1279 a 1212 a.C.), quando este deu lugar ao Terceiro Período Intermediário.
Os filisteus parecem ter feito parte dos Povos do Mar, saqueadores marítimos de origem egeia que dominaram o Mediterrâneo oriental no fim do segundo milênio a.C. e ameaçaram o Egito na época de Ramsés II e Merneptá. Instalaram-se no litoral sul de Canaã no século XII a.C. e fundaram cinco cidades-Estado: Gaza, Ascalon, Asdode, Ecrom e Gat. De seu nome vem a palavra Palestina, usada por gregos e romanos.
Os fenícios também viviam no litoral de Canaã (norte do atual Israel e Líbano), mas, ao contrário dos filisteus, eram um povo cananeu de cultura parecida com a dos israelitas. Urbanos, sediados em cidades como Biblos e Tiro, eram comerciantes e navegantes que fundaram colônias pelo Mediterrâneo, entre elas Cartago, na atual Tunísia.
Os arameus, da Síria, parecem ter sido seminômades, mas na época da consolidação política de Israel formavam reinos entre a Assíria e os reinos neo-hititas. Eram uma ameaça ocasional a Israel, mas foram subjugados pelos assírios. Sua língua, o aramaico, tornou-se língua internacional do Oriente Próximo, usada na administração por muitos não arameus, inclusive judeus.
A leste do Jordão viviam amonitas, moabitas e edomitas, de cultura muito parecida com a israelita e ligados por Gênesis a Israel por laços de parentesco (amonitas e moabitas a Ló, sobrinho de Abraão; edomitas a Esaú, irmão de Jacó), embora também descritos como rivais hostis. Cada povo formou um reino na época em que Israel formava sua monarquia, e os edomitas sobreviveram até o século I a.C., quando seus descendentes eram chamados de idumeus.
Tradição ou narrativa
Na Bíblia, os cananeus são os habitantes da terra a oeste do Jordão, que segundo os cinco livros de Moisés deveriam ser expulsos e ter o nome apagado; outras fontes bíblicas sugerem que persistiram como escravos sob o domínio de Israel. Entre eles estavam os jebuseus, habitantes de Jerusalém antes de Davi, que podem ter continuado ali como escravos ou classe baixa mesmo depois da conquista.
06Reinos, profecia e queda
Jeroboão fundou no norte o Reino de Israel; os reinos de Judá e de Israel existiram lado a lado por dois séculos, até a Assíria destruir o do norte e exilar seus habitantes, as dez 'tribos perdidas'. O reino do sul, tão ligado ao território de Judá, era também chamado de Reino de Judá.
Profetas anteriores, como Samuel, Natã e Elias, concentravam-se no rei, mediando sua relação com Deus ou protestando contra seus abusos. Depois da conquista assíria, a profecia assumiu um novo papel: consolar, imaginar um futuro depois da conquista e expressar o desejo de vingança, num momento em que a independência política e a confiança na proteção de Deus estavam abaladas.
Nabucodonosor conquistou Judá em 598 a.C., exilou seu rei Joaquim e pôs no lugar o tio dele, a quem rebatizou Zedequias. Judá poderia ter sobrevivido como vassalo, mas se mostrou inquieto: Zedequias aderiu a uma rebelião contra os babilônios, e Nabucodonosor voltou e destruiu de fato o Reino de Judá. Em 587 ou 586 a.C., queimou o Templo de Jerusalém e saqueou seu conteúdo, matou Zedequias e seus filhos e exilou na Babilônia uma parte substancial da população. A cronologia do livro registra a destruição do Primeiro Templo nesse ano.
07Sexo, genética e morte
Sexo e sagrado parecem incompatíveis na Bíblia hebraica: antes da revelação no Sinai, Israel devia se abster de atividade sexual (Êxodo 19:15), e os sacerdotes tinham mais restrições. Deus nunca age de modo sexual, e seu culto, até onde se sabe, não envolvia sexo. Isso não significa condenação da expressão sexual em outros contextos: o Cântico dos Cânticos, atribuído a Salomão mas provavelmente escrito por outro, celebra o desejo erótico, que nunca é condenado.
A Bíblia hebraica não trata o sexo como pecaminoso em si: Gênesis 1 o apresenta como cumprimento do primeiro mandamento, 'frutificai e multiplicai-vos'. Mas o reconhece como ato potencialmente destrutivo para a comunidade: segundo Levítico 18, a terra expulsou os cananeus em grande parte por sua conduta sexual. Ao mesmo tempo, a Bíblia admite poligamia (de homens) e relações com concubinas, e tolera o estupro de um modo que hoje seria inaceitável.
Na cultura israelita, pais e maridos controlavam a atividade sexual das mulheres, e a sexualidade feminina fora desse controle era vista como vergonhosa e ameaçadora. A lei bíblica regula a vida sexual de homens e mulheres, mas impõe mais restrições às mulheres: o homem podia ter várias parceiras e se divorciar para casar com outra, mas a mulher não podia ter vários maridos, nem relações antes do casamento, nem iniciar o divórcio. A lei nunca proíbe explicitamente o lesbianismo, provavelmente porque o que as mulheres faziam entre si interessava pouco a seus legisladores.
Cientistas introduziram recentemente uma terceira fonte além dos textos e da arqueologia: o DNA. Comparando amostras genéticas de judeus com as de não judeus do mesmo lugar ou de judeus de outras partes, a análise mostra que as populações judaicas muitas vezes têm história genética própria: frequentemente se casaram com não judeus, mas também registram o efeito da endogamia. Os perfis de muitos judeus indicam ancestrais do Oriente Próximo.
Interpretação contestada
A pesquisa genética é nova e controversa, e alguns críticos questionam como as evidências são interpretadas; os nazistas usaram a biologia para justificar o genocídio, e há quem receie abuso semelhante. Um estudo famoso de 1997 (Skorecki, Hammer e outros, na revista Nature) indicou que os cohanim, homens judeus que se julgam descendentes da casta sacerdotal de Aarão, descendem de uma linhagem paterna comum de 2.000 ou 3.000 anos atrás; pesquisas mais recentes puseram em dúvida aspectos do estudo, e os próprios autores revisaram sua interpretação.
Até agora, essa pesquisa não mudou de modo dramático a compreensão da história judaica antiga; se alguma coisa, confirmou uma visão bastante tradicional. Mas pode ampliar o conhecimento sobre a história reprodutiva dos judeus, e é especialmente interessante que revele algo sobre as ancestrais femininas, dada a dificuldade de recuperar informação sobre mulheres judias antigas. Os autores recomendam ceticismo, mas também abertura.
Na religião cananeia pré-israelita, ao menos na literatura de Ugarit, a morte era imaginada como uma divindade, Mot, um ser voraz que podia devorar multidões e até vencer os deuses: num mito, derrota o próprio Baal. A literatura bíblica talvez aluda ao mito de Mot, mas a morte não é uma divindade ali: a Bíblia hebraica não tem histórias de combate entre Deus e a morte nem rituais para afastá-la.
A Bíblia hebraica parece pouco interessada no problema da morte, comparada a outras literaturas do Oriente Próximo: a epopeia de Gilgamesh é em boa parte uma busca da imortalidade, e o Egito parece ter sido absorvido pela morte e pela vida após ela. Na Bíblia, os mortos vão para o Sheol, um lugar sombrio onde não falam; casos como Enoque e Elias, poupados da morte, e a ressurreição por Eliseu são raras exceções. Os israelitas acreditavam em fantasmas (1 Samuel 28), mas a Bíblia proíbe consultar os mortos ou lhes fazer oferendas.
Como outros povos do Oriente Próximo, os israelitas expressavam o luto de modo intenso: rasgavam as roupas, punham pó na cabeça, batiam no peito, raspavam o cabelo e entoavam lamentações; objetos achados em túmulos (joias, possíveis oferendas de comida, figurinhas) mostram a preocupação com os mortos. Mas a Bíblia não revela anseio de imortalidade: o ideal era uma vida longa, próspera e com muitos filhos. A morte de Abraão, velho (175 anos), com muitos descendentes e sepultado com Sara em terra sua, é o modelo da boa morte.
08Javé e o monoteísmo
Javé parece uma divindade nova em relação aos demais deuses de Canaã: não aparece na literatura de Ugarit nem em outra fonte cananeia, embora se conheçam alguns nomes de lugares e pessoas semelhantes. O nome Israel, que já existia no século XIII a.C., incorpora 'El', não uma forma de Javé. Javé parece surgir do nada, pela primeira vez num contexto datável com clareza no período da monarquia israelita, e só se podem fazer palpites fundamentados sobre sua origem.
Apesar disso, é possível reconhecer continuidades entre Javé e a religião cananeia anterior. O judaísmo atual é monoteísta, mas a Bíblia guarda vislumbres de uma forma anterior de religião israelita muito mais próxima do politeísmo cananeu, que identificava Javé com El ou Baal e admitia deuses menos poderosos ao lado dele. Um vislumbre está no Salmo 89, onde se fala do 'conselho dos santos' e dos 'filhos dos els', expressão que pode significar 'deuses'.
O sentido de YHWH é desconhecido, e nem se sabe como pronunciá-lo, pois suas vogais foram esquecidas: depois da era bíblica os judeus passaram a evitar pronunciar o nome, e as vogais hoje escritas vêm de Adonay, 'Meu Senhor'. A Bíblia sugere ligação com o verbo 'ser' (Êxodo 3:14, 'Eu sou quem sou'), mas alguns estudiosos acham que o nome vem da forma causativa, 'aquele que faz ser', isto é, o Criador. Outras etimologias foram propostas.
As mudanças impostas pelo domínio babilônico (o fim da dinastia davídica, a destruição do Templo e o exílio de Judá) foram decisivas para a passagem da cultura judaíta à judaica, mas, sozinhas, não bastam para explicá-la: a própria Bíblia hebraica teve papel catalisador. Os judaítas leram a Bíblia, ou os textos que viriam a ser a Bíblia, para recuperar a vida perdida, e assim criaram o início de algo novo: uma cultura centrada na interpretação de textos sagrados e gerada por ela. Para entender a ascensão da cultura judaica, é preciso conhecer a própria Bíblia.
§ 01Índice
19 eventos
§ 02Pessoas
Quem aparece neste capítulo
- AbraãoPatriarca bíblico
- SaraMatriarca bíblica
- Jacó (Israel)Patriarca bíblico e epônimo de Israel
- MoisésProfeta e legislador bíblico
- JosuéLíder bíblico da conquista de Canaã
- SaulPrimeiro rei de Israel na narrativa bíblica
- DaviRei bíblico de Israel e Judá
- GoliasGuerreiro filisteu da narrativa bíblica
- ElanãGuerreiro bíblico de Belém
- SalomãoRei bíblico e construtor do Primeiro Templo
- Jeroboão IPrimeiro rei bíblico do Reino do Norte
- AcabeRei de Israel
- JeúRei de Israel
- EzequiasRei de Judá
- SenaqueribeRei da Assíria
- JeremiasProfeta de Judá
- Nabucodonosor IIRei da Babilônia
- MerneptáFaraó do Egito
- AquenátonFaraó e promotor do culto de Aton
- Sargão de AcadeRei mesopotâmico e fundador de império
- Salmanasar IIIRei da Assíria
§ 03Historiografia
Debates do capítulo
Debate acadêmico · 01
É possível confirmar historicamente os patriarcas de Gênesis?
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- A
Memória de pessoas reais
Leitores tradicionais e algumas reconstruções antigas
Costumes e lugares plausíveis seriam indícios de uma lembrança histórica preservada nas narrativas familiares.
- B
Não verificáveis
Avaliação adotada pelos autores
Paralelos culturais não identificam indivíduos, e anacronismos mostram que os relatos receberam forma em épocas posteriores.
Debate acadêmico · 02
O Êxodo ocorreu como narrativa histórica?
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- A
Núcleo histórico
Estudiosos que relacionam o relato a migrações entre Egito e Canaã
O trânsito de trabalhadores, escravos e fugitivos torna possível que uma memória de saída do Egito esteja por trás da tradição.
- B
Não demonstrado
Estudiosos céticos
A ausência de confirmação egípcia e o silêncio da Estela de Merneptá sobre uma origem externa impedem verificar o episódio.
Debate acadêmico · 03
Israel surgiu por uma conquista externa de Canaã?
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- A
Conquista sob Josué
Narrativa bíblica tradicional
Um povo vindo de fora teria derrotado rapidamente cidades cananeias e ocupado a terra.
- B
Surgimento local
Muitos arqueólogos atuais
Novas aldeias das terras altas parecem ter sido formadas sobretudo por habitantes locais de Canaã.
Debate acadêmico · 04
De que população surgiu o primeiro Israel?
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- A
Imigrantes ou marginais
Hipóteses sobre hicsos, Shasu e Habiru
Grupos móveis ou socialmente deslocados poderiam ter contribuído para a população que adotou o nome Israel.
- B
Maioria cananeia
Reconstrução arqueológica destacada no capítulo
Continuidade material, língua e padrão de assentamento indicam que a maioria vinha da própria Canaã.
Debate acadêmico · 05
Qual foi a escala do reino de Davi e Salomão?
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- A
Estado substancial
Arqueólogos de meados do século XX e alguns arqueólogos recentes
Por décadas, estábulos em Megido, um porto no mar Vermelho e fortificações em Hazor foram atribuídos a Salomão; alguns arqueólogos recentes julgam que estruturas imponentes provam um Estado israelita no século X a.C.
- B
Pequeno domínio
Outros arqueólogos, céticos
Os achados antes datados da época de Salomão teriam sido mal interpretados e pertenceriam a outros períodos.
Debate acadêmico · 06
O Templo de Salomão pode ser reconstruído historicamente?
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- A
Planta bíblica comparável
Reconstruções apoiadas em Reis e templos regionais
A descrição de Reis e paralelos arquitetônicos permitem imaginar um edifício de tradição levantina.
- B
Evidência insuficiente
Avaliação cautelosa dos autores
Não há imagens da época nem vestígios arqueológicos; a tentativa de Montagu Parker (1909 a 1911) sob o Monte do Templo provocou distúrbios e não foi retomada, e a romã inscrita mostrou-se provavelmente falsa. Os autores ainda assim julgam errado negar que o Templo existiu.
Debate acadêmico · 07
Por que Jerusalém sobreviveu à campanha assíria de 701 a.C.?
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- A
Intervenção divina
Relato bíblico
Um agente divino teria atingido o exército assírio e protegido a cidade.
- B
Uma vitória assíria típica
Relato de Senaqueribe
Depois de destruir as outras cidades e fortes de Judá, Senaqueribe diz ter prendido Ezequias em Jerusalém "como um pássaro numa gaiola", sem tomar a cidade. A própria Bíblia (2 Reis 18,14) menciona que Ezequias pagou uma multa, e os autores sugerem que talvez por isso a cidade tenha sido poupada.
Debate acadêmico · 08
De onde veio o culto de Javé?
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- A
Ambiente cananeu e El
Hipótese cananeia
Nomes, títulos e a ligação com Aserá aproximariam Javé de El e do panteão cananeu.
- B
Origem meridional
Hipótese midianita
Textos que fazem Javé vir do sul e tradições do Sinai apontariam para um culto adotado fora de Canaã.
- C
Fusão de tradições
Síntese proposta no quadro
Tradições meridionais e cananeias, ou vários cultos regionais de Javé, podem ter sido reunidos.
Debate acadêmico · 09
O que significa a expressão 'Javé e sua Aserá'?
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- A
Uma deusa companheira
Parte dos intérpretes
A expressão indicaria que certos israelitas entendiam Aserá como consorte de Javé.
- B
Objeto de culto
Leitura alternativa
A palavra poderia designar um símbolo ou objeto ritual, não uma deusa pessoal.
Debate acadêmico · 10
Quando e por que surgiu o monoteísmo israelita?
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- A
Origem remota
Teorias ligadas a Aquenáton ou a Moisés
Alguns estudiosos veem uma possível influência do faraó Aquenáton, e por essa via a crença num único Deus remontaria ao segundo milênio a.C.
- B
Época imperial
Hipótese favorecida no capítulo
A adoração exclusiva teria amadurecido durante os domínios assírio, babilônico e persa.
- C
Resistência teológica
Explicação alternativa dos autores
Negar os deuses dos conquistadores poderia preservar a supremacia de Javé diante da derrota política.