O início da 'era de ouro' na Andaluzia
Data
912d.C.
912 a 970 d.C.
Na Córdoba de Abd ar-Rahman III, o médico Hasdai ibn Shaprut subiu na corte, atuou como diplomata e tradutor, escreveu ao rei dos cázaros e foi mecenas das artes e das ciências.
Narrativa com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
11 afirmações
01Sefarad e al-Andalus
O período do domínio islâmico na Espanha (Sefarad em hebraico, al-Andalus em árabe) é lembrado popularmente como uma 'era de ouro' da história judaica. Como o Egito fatímida, a Espanha muçulmana dos séculos X e XI se tornou um centro de cultura judaica por direito próprio. O descendente de um sobrevivente da dinastia omíada derrotada fugiu para lá e, com Abd ar-Rahman III (912 a 961), estabeleceu em 929 o califado omíada de Córdoba, contracalifado em relação a Bagdá.
Em 756, Abd al-Rahman I, herdeiro omíada que fugira dos abássidas, estabeleceu um principado na Espanha e governou até 788.
Córdoba era então uma cidade vasta e sofisticada, com 100 mil habitantes ou mais, grandes bibliotecas (a do califa teria 400 mil volumes), uma magnífica mesquita e um enorme palácio real construído nos arredores, em Madinat az-Zahra. Observadores judeus também elogiaram a terra por sua fartura, e como centro de comércio e cultura.
02O médico e ministro
Hasdai ibn Shaprut (919 a 970), médico e conselheiro de Abd ar-Rahman III e de seu sucessor al-Hakam (961 a 976), subiu na corte graças à fama de médico, em especial pela descoberta de antídotos contra venenos. Ao ganhar a confiança do califa, passou a servir várias vezes como intermediário diplomático: nas negociações com o imperador bizantino, inimigo comum dos abássidas, e nas relações com governantes cristãos da Europa.
O erudito muçulmano Sa'id al-Andalusi (m. 1070) descreveu Hasdai como quem conduziu os judeus de Sefarad a uma nova era de independência cultural em relação aos centros orientais. Antes, os judeus da Andaluzia recorriam aos de Bagdá para aprender a lei e acertar o calendário; Hasdai, com ajuda do califa, obteve as obras dos judeus do Oriente e ensinou-os. Para os autores, foi parte de um processo maior: o declínio do centro babilônico e a ascensão de novos centros.
Quando o imperador bizantino enviou ao califa um raro manuscrito grego de farmacologia, mandou também um monge para traduzi-lo do grego ao latim (De Materia Medica), e coube a Hasdai traduzir o latim para o árabe.
03O mecenas
Hasdai correspondeu-se com José, rei dos cázaros, povo turcomano do norte do mar Negro cujas famílias dominantes haviam abraçado o judaísmo. Interessado na ideia de um Estado judeu soberano, perguntou ao rei se tinha notícias da vinda do messias (não tinha). Como o califa, que patrocinava a erudição islâmica e secular, Hasdai foi mecenas das artes e das ciências. Entre seus protegidos estavam Menahem ben Saruq e Dunash ben Labrat, dois dos principais poetas e eruditos da língua hebraica, que ajudaram a lançar as bases da 'era de ouro' da poesia hebraica na Espanha medieval e cuja obra simbolizou o encontro entre a cultura judaico-hebraica e a islâmico-árabe.
Contexto
Gerber descreve a mudança do bairro judaico de Córdoba: antes da conquista muçulmana ficava a sudoeste junto ao muro; no séc. X foi ampliado ao norte, a ponto de historiadores árabes medievais chamarem o portão de Bab el-Yahud, o Portão dos Judeus.
Para Gerber, a segregação residencial no período muçulmano medieval nem sempre era discriminatória: seguia padrões urbanos do Oriente Médio em que grupos (judeus, cristãos, berberes) muitas vezes viviam em bairros próprios.
Gerber destaca as cartas hebraicas de Hasdai ibn Shaprut ao soberano cazar José, guardadas e retransmitidas por séculos na Espanha judaica como espelho de suas qualidades pessoais.
§ 01Geografia
Onde aconteceu
§ 02Museu
Objetos e imagens
§ 03Historiografia
O que os estudiosos discutem
Debate acadêmico · 01
A Espanha muçulmana foi uma 'era de ouro' para os judeus?
2 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
A memória popular de uma era de ouro
A lembrança popular, segundo os autores
O domínio islâmico na Espanha é lembrado como uma 'era de ouro' da história judaica, e Samuel ha-Nagid, ministro do rei de Granada, teria atingido o ápice do que um dhimmi podia alcançar.
- B
Uma era de ouro com limites e fim abrupto
Efron, Lehmann e Weitzman
O massacre de Granada em 1066 mostra que a convivência podia virar violência, e a perseguição almóada marcou o fim dessa era, com o centro da vida judaica ibérica passando ao território cristão.
§ 04Rede
Conexões
§ 05Bibliografia
Para continuar
Eliyahu Ashtor, History of the Jews in Muslim Spain (Philadelphia: Jewish Publication Society of America, 1973–1984).
História mais detalhada dos judeus da Espanha islâmica · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 182
Jane Gerber, The Jews of Spain (New York: Free Press, 1992).
História dos judeus da Espanha · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 212
§ 06Aparato
Fontes desta página
- 01Efron, Lehmann e Weitzman, p. 166; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 167; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 521inspecionar
- 02Efron, Lehmann e Weitzman, p. 167; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 167inspecionar
- 03Efron, Lehmann e Weitzman, p. 165; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 165; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 521inspecionar
- 04Efron, Lehmann e Weitzman, p. 521inspecionar
- 05Efron, Lehmann e Weitzman, p. 165; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 165; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 166inspecionar
- 06Efron, Lehmann e Weitzman, p. 166; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 166; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 166inspecionar
- 07Efron, Lehmann e Weitzman, p. 167inspecionar
- 08Efron, Lehmann e Weitzman, p. 167; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 167inspecionar
- 09Gerber, p. 38inspecionar
- 10Gerber, p. 38inspecionar
- 11Gerber, p. 50inspecionar
- Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
- Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
- Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
- Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
- Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.
