Uma defesa do judaísmo contra a filosofia
Data
1075d.C.
c. 1075 a 1141data aproximada
Em seu Livro do Cuzari, Judá ha-Levi defendeu o judaísmo, num diálogo entre o rei dos cázaros e um rabino, contra o cristianismo, o Islã, os caraítas e a filosofia racional, e afirmou que só o povo judeu possui o espírito de profecia.
Narrativa com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
5 afirmações
01O autor
Judá ha-Levi (cerca de 1075 a 1141), nascido na Espanha cristã mas vivido quase sempre na al-Andalus muçulmana até partir para a Palestina em 1140, preocupava-se com as implicações da filosofia racional para o judaísmo rabínico. Escreveu em árabe um tratado, depois traduzido ao hebraico, conhecido como Sefer ha-Kuzari (Livro do Cázare), em defesa da fé desprezada contra o cristianismo, o Islã, os caraítas e, acima de tudo, a filosofia racional.
02O diálogo
Ha-Levi enquadrou a defesa do judaísmo como um diálogo entre o rei dos cázaros e um rabino. A história é fictícia, embora a conversão da classe dirigente cázara ao judaísmo pareça fato histórico: o rei sonha que um anjo lhe diz que suas intenções são louváveis, mas seus atos não, e parte em busca da verdade. Convoca um filósofo, um cristão e um muçulmano, nenhum o convence, até que chama um rabino, que expõe os princípios do judaísmo. Pela voz do rabino, ha-Levi opõe o judaísmo à filosofia. Ao contrário de Saadia, para quem não havia contradição final entre filosofia racional e religião revelada, o Cuzari afirma uma diferença intransponível entre conhecimento filosófico e profético: só o povo judeu possui o espírito da profecia, e Deus se revelou especificamente a ele. Seu rabino nota, por exemplo, que Moisés não se apresentou ao faraó como enviado do Deus dos céus e da terra.
03Etnocentrismo e saudade de Sião
Grande parte do Cuzari enaltece as qualidades superiores do povo judeu, da Terra de Israel e do hebraico, e ha-Levi chega a dizer que o gentio que se une sinceramente a Israel compartilha sua boa sorte, mas não é igual a ele, pois não teria o espírito da profecia, transmitido de Abraão a Isaac e Jacó e ao povo como comunidade de descendência comum. Leitores modernos se incomodam com esse entendimento etnocêntrico (alguns dizem racista) da identidade judaica, o que não parece ter perturbado seus leitores medievais. Preso entre o Islã e a cristandade, ha-Levi ansiava por Israel. Num famoso poema lamentou estar no extremo oeste com o coração no Oriente: Sião estaria atada por Edom, nome comum do cristianismo na literatura judaica medieval, isto é, os cruzados que haviam tomado a cidade santa e banido seus judeus, e ele pelas 'cadeias da Arábia', alusão aos tempos turbulentos sob os almorávidas. Ainda assim, foi representante da 'era de ouro' literária da Espanha judaica: chegaram até nós cerca de 800 poemas seus, inclusive poesia secular sobre vinho, amor e a beleza de rapazes e mulheres.
§ 01Geografia
Onde aconteceu
§ 03Historiografia
O que os estudiosos discutem
Debate acadêmico · 01
Razão e revelação podem se contradizer?
3 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Harmonia sempre possível (Saadia)
Saadia Gaon
Razão e revelação sempre levam à mesma verdade, e não pode haver contradição entre a filosofia e a Torá revelada.
- B
Dois domínios do saber, só depois comparáveis
Os aristotélicos judeus
Conhecimento filosófico e profético são distintos, e a filosofia deve operar sem considerar as verdades reveladas; só depois se podem confrontar as duas.
- C
Uma diferença intransponível (Judá ha-Levi)
Judá ha-Levi
Só o povo judeu possui o espírito da profecia, e há uma diferença intransponível entre o conhecimento filosófico e o profético.
§ 05Bibliografia
Para continuar
Colette Sirat, A History of Jewish Philosophy in the Middle Ages (Cambridge, England: Cambridge University Press, 1985).
História do pensamento judaico medieval · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 182
§ 06Aparato
Fontes desta página
- 01Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 521inspecionar
- 02Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172inspecionar
- 03Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172inspecionar
- 04Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172inspecionar
- 05Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172inspecionar
- Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
- Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
- Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
- Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
- Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.