O Guia dos Perplexos e o Mishné Torá
Data
1135d.C.
1135 a 1204
Nascido em Córdoba e fixado no Cairo, Maimônides moldou a cultura judaica como filósofo (Guia dos Perplexos), jurista (Mishné Torá) e líder da comunidade judaica egípcia.
Narrativa com fontes
Cada bloco é uma afirmação verificável. O número abre a página citada; blocos em âmbar ou coral sinalizam tradição ou interpretação contestada.
8 afirmações
01A vida
A figura mais imponente do judaísmo medieval no mundo islâmico foi outro erudito de origem espanhola, Moisés Maimônides (Moshe ben Maimon, o Rambam, 1135 a 1204), nascido em Córdoba. Ele e a família foram forçados a deixar a Espanha durante a perseguição almóada: foram primeiro para Fez, e ele acabou se fixando no Cairo, onde foi médico a serviço da corte fatímida e ganhou poder dentro da comunidade judaica egípcia. Maimônides moldou a cultura judaica de três modos. Foi um dos filósofos mais notáveis (no interior da tendência dominante do aristotelismo judaico), expondo sua visão no Guia dos Perplexos, escrito em árabe. Escreveu em hebraico um clássico da lei judaica, o código abrangente Mishné Torá. E foi líder político, fundando o que viraria uma dinastia de liderança da comunidade judaica egípcia por várias gerações. Escreveu ainda aos judeus do Iêmen, advertindo-os contra os falsos messias.
02O Guia dos Perplexos
O Guia dos Perplexos (escrito no fim dos anos 1180) tratou dos temas de todos os filósofos medievais: razão e profecia, criação, a lógica dos mandamentos, livre-arbítrio contra presciência divina, existência do mal e natureza de Deus. Maimônides reconheceu os limites da razão: só podemos saber o que Deus não é, e atribuir-lhe qualidades positivas seria erro filosófico. A linguagem antropomórfica da Bíblia devia ser lida como metáfora. O problema desse racionalismo é que o Deus dos aristotélicos permanecia esquivo, incognoscível e impessoal.
Saadia distinguia mandamentos compreensíveis pela razão e os aceitos só por autoridade da revelação, como as leis cerimoniais dos sacrifícios. Maimônides discordava: todos os mandamentos divinos podem ser derivados pela razão, embora a lei cujo motivo não se descobre deva ser cumprida por inteiro. Em sua explicação ousada, os sacrifícios do Templo foram essencialmente uma concessão aos costumes da época, pois a natureza humana gosta do que lhe é habitual.
Tal explicação histórica e racional levantava a pergunta de por que continuar praticando os mandamentos uma vez entendido seu sentido filosófico. Maimônides via o perigo do estudo filosófico: o Guia não se destinava aos 'vulgares' ou iniciantes, nem a quem só estudou a ciência da Lei, pois a filosofia era o maior grau de compreensão, mas perigosa para quem não tivesse preparo e pudesse se desviar da lei e da tradição. Ele a comparou à água: quem sabe nadar tira pérolas do fundo do mar; quem não sabe, se afoga.
A legenda da Figura 6.2 apresenta a estátua de Maimônides (1135 a 1204) em Córdoba, onde nasceu, como o eminente erudito medieval de direito rabínico e filósofo.
03O Mishné Torá
Durante grande parte do período medieval e moderno inicial, até o Iluminismo judaico redescobrir sua obra filosófica no século XVIII, Maimônides foi associado sobretudo ao Mishné Torá ('repetição da lei'). Não foi o primeiro rabino medieval a compor um compêndio abrangente da lei judaica: Isaac Alfasi, chefe da academia rabínica de Lucena, perto de Córdoba, fizera isso um século antes. O Mishné Torá foi, mesmo assim, uma grande inovação. Maimônides escreveu num hebraico claro, modelado na língua da Mishná, para alcançar o público mais amplo possível; reorganizou o vasto material da literatura rabínica clássica em capítulos por assunto, tornando o código mais acessível; e abriu mão da ambiguidade e do vaivém argumentativo típicos do Talmude, apresentando de forma concisa decisões jurídicas claras. Embora a lei judaica de hoje às vezes difira de suas decisões, a obra segue como uma das grandes da literatura rabínica medieval.
§ 01Geografia
Onde aconteceu
§ 02Museu
Objetos e imagens
§ 03Historiografia
O que os estudiosos discutem
Debate acadêmico · 01
Razão e revelação podem se contradizer?
3 posições · sem resposta única · sentar à mesa →
- A
Harmonia sempre possível (Saadia)
Saadia Gaon
Razão e revelação sempre levam à mesma verdade, e não pode haver contradição entre a filosofia e a Torá revelada.
- B
Dois domínios do saber, só depois comparáveis
Os aristotélicos judeus
Conhecimento filosófico e profético são distintos, e a filosofia deve operar sem considerar as verdades reveladas; só depois se podem confrontar as duas.
- C
Uma diferença intransponível (Judá ha-Levi)
Judá ha-Levi
Só o povo judeu possui o espírito da profecia, e há uma diferença intransponível entre o conhecimento filosófico e o profético.
§ 04Rede
Conexões
§ 05Bibliografia
Para continuar
Isadore Twersky, A Maimonides Reader (New York: Behrman House, 1972).
Antologia de Maimônides · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 182
Sarah Stroumsa, Maimonides and His World: Portrait of a Mediterranean Thinker (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2009).
Maimônides no mundo mediterrâneo · recomendado em Efron, Lehmann e Weitzman, p. 182
§ 06Aparato
Fontes desta página
- 01Efron, Lehmann e Weitzman, p. 172; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 521inspecionar
- 02Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173inspecionar
- 03Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173inspecionar
- 04Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173inspecionar
- 05Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 173inspecionar
- 06Efron, Lehmann e Weitzman, p. 174inspecionar
- 07Efron, Lehmann e Weitzman, p. 175; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 175inspecionar
- 08Efron, Lehmann e Weitzman, p. 175; Efron, Lehmann e Weitzman, p. 175inspecionar
- Evidência documentadaAtestado por evidência da própria época: textos, inscrições, moedas, papiros ou arqueologia.
- Reconstrução acadêmicaInferência dos historiadores a partir de evidência indireta.
- Tradição ou narrativaRelato literário, tradicional ou religioso; importante em si, mas não verificado de forma independente.
- Interpretação contestadaEstudiosos discordam explicitamente; veja as posições em debate.
- Reconstrução ilustrativaHipótese ou esquema visual para orientar a leitura; não é afirmação histórica.
